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O dilema de voltar a trabalhar

Voltar ao trabalho depois de uma pausa mais prolongada do que apenas um final de semana não é fácil pra ninguém!

Imagine então voltar a trabalhar deixando em casa o presente mais valioso que se tem, e que ainda por cima exige e conquista toda a nossa atenção?

A maioria das mães passa por essa dificuldade ao término da licença maternidade, um direito previsto no art. 7º, inciso XVIII, da Constituição Federal e, também, no art. 392 e seguintes da CLT – Consolidação das Leis do Trabalho, de acordo com a advogada Ana Amélia Prates.

Segundo o artigo 392 da CLT a empregada gestante tem direito à licença-maternidade de 120 dias, sem prejuízo do emprego e do salário. A gestante deve, mediante atestado médico, notificar o seu empregador da data do início do afastamento do emprego, que poderá ocorrer entre o 28º dia antes do parto e ocorrência deste. Entre outras determinações este artigo prevê ainda a dispensa da mulher grávida do horário de trabalho pelo tempo necessário para a realização de, no mínimo, seis consultas médicas e demais exames complementares durante a gestação.

“É importante salientar que a licença-maternidade também é prevista para as mamães que adotarem crianças, mediante apresentação do termo judicial de guarda” afirma Ana Amélia.

Ela ainda explica que a Lei 11.770/08 criou o Programa Empresa Cidadã, permitindo ao empregador facultativamente estender a licença-maternidade por mais 60 dias, assumindo o pagamento da remuneração, nesses dois meses, podendo deduzir do imposto devido, caso seja tributada sobre o lucro real e se for optante do simples (micro e empresas de pequeno porte). O acréscimo de 60 dias não é um direito previdenciário; o pagamento é do empregador. Isto porque a licença-maternidade de 120 dias é um benefício previdenciário que é custeado pelas contribuições patronais calculadas sobre a folha de pagamento, ou seja, o benefício é pago pelo INSS à trabalhadora.

Já na administração pública a licença-maternidade de 180 dias foi implementada através do Decreto 6.690/08, que instituiu o Programa de Prorrogação da Licença à Gestante e à Adotante.

Pela lei, a licença maternidade tem um tempo definido de início e término. Mas e quando as mães não são registradas, quando devem tomar a decisão de retornar a trabalhar?

A consultora Roberta Cury é sócia da empresa onde trabalha e retomou a rotina dos negócios quando seu filho tinha apenas um mês e quinze dias de vida.

“Tomei a decisão de voltar porque minha remuneração é baseada em projetos que eu trabalho e infelizmente não podia me dar o luxo de ficar parada. Tive sorte porque tenho uma boa estrutura para deixar meu filho. Durante a semana deixo o Enrico com a babá na casa da minha tia que mora a duas quadras do meu trabalho, assim consigo conciliar o trabalho com os cuidados do meu filho. Fico muito tranquila sabendo que se qualquer coisa acontecer com ele estou ao lado e que minha tia está supervisionando o trabalho da babá.” explica ela.

Já a gerente de marketing Brenda Lisboa voltou ao trabalho quando seu filho tinha um pouco mais de cinco meses – devido à licença maternidade a que teve direito e a mudança de emprego por que passou – e conta que foi um dos piores momentos que viveu desde o nascimento de Enzo.

“Eu achei que seria fácil por que sempre fui independente e desapegada das coisas. Mas foi um dos momentos mais difíceis dentre os quais tive que passar desde que ele nasceu. Chorei todas as manhãs por alguns dias. Ainda hoje, sinto muita falta e penso nele o tempo todo, mas o meu trabalho exige muita dedicação. Trabalho a uma hora de casa e, aproximadamente, 9 horas por dia. Isso faz com que fique quase 12 horas por dia longe dele em função do trabalho. Além disso, minha rotina inclui algumas viagens. O que faço é tentar ser o mais produtiva possível durante o período em que estou na empresa para não precisar ficar ainda mais tempo longe dele. E, quando tenho que viajar, evito dormir fora. Muitas vezes acordo cedo e pego o primeiro vôo da manhã, para não precisar viajar na noite anterior ao compromisso. Mas o que mais faz a diferença é que posso contar muito com meu marido. Ele tem horários mais flexíveis e fica com o Enzo quando eu não posso estar. Ele é uma “mãezona”!!” confessa Brenda.

A volta ao trabalho – seja ela no tempo em que for – é uma dificuldade para a maioria das mulheres. E dilemas como esse geralmente são melhores resolvidos com o auxílio de profissionais competentes que nos ajudam a enfrentar as situações. Por isso, conversamos com a psicóloga Patrícia Santanna sobre o tema.

Veja a seguir a entrevista:

Equipe Hipoglós – Qual a principal dificuldade da mulher que volta ao trabalho após a maternidade?

Patrícia Santanna – Na minha experiência clínica como psicóloga e terapeuta cognitiva percebo que a principal dificuldade da mulher que volta ao trabalho após a maternidade é a dificuldade de conciliar a vida profissional com os cuidados com o bebê. A mãe dedica-se integralmente ao bebê durante a licença-maternidade e apesar de ficarem felizes com a retomada da vida profissional, afinal sabemos que hoje em dia muitas mulheres adiam a maternidade justamente para realizar-se profissionalmente, adquirir estabilidade financeira tentando assim organizar-se para conciliar a maternidade com a volta ao trabalho, o fato é que mesmo sabendo e organizando-se previamente a grande maioria das mulheres sofre sim com a culpa da separação, a insegurança de que seu bebê não será bem cuidado seja com quem for, de que estará perdendo algum momento importante em relação ao desenvolvimento do bebê, que a separação poderá trazer prejuízos irreparáveis ou traumáticos para seu bebê e assim pensamentos automáticos negativos podem invadir a mente da mãe desencadeando emoções e comportamentos disfuncionais. É da natureza humana ter medo do desconhecido, essa nova situação pode sim ser conflituosa porque gera vários questionamentos e dúvidas, mas o fato é que a grande maioria das mulheres consegue com o passar do tempo resolver esses conflitos inicias e retomar sua vida profissional, percebo que quanto maior a satisfação profissional e/ou a necessidade financeira, tanto menor é o tempo conflituoso e mais fácil esse período adaptativo.

Equipe Hipoglós – A maioria das mães tem um tempo determinando pela lei para retomar a rotina de trabalho. Mas também há muitas mães que podem definir quando voltar a trabalhar. Nesse caso, quando a mulher sabe que está pronta a voltar ao trabalho?

Patrícia Santanna – Não é incomum encontrarmos mulheres que também ficam ansiosas para retornarem logo ao trabalho, seja pelo prazer proporcionado pelo exercício profissional, pela necessidade financeira, ou ainda pela dificuldade interna de exercerem esse novo papel de mãe; porém o que sabemos é que apesar de ser uma decisão muito pessoal a mulher precisa respeitar as limitações do próprio corpo, visto que algumas passaram até por uma cirurgia, tem que ter bom senso e saber que os primeiros dez dias após o parto, período que chamamos de puerpério imediato, a mulher vivencia as transformações do organismo para o retorno ao estado antes da gravidez e o puerpério pode durar de 6 a 8 semanas. Neste período a mãe pode experimentar um período de transformações e adaptações não só físicas como psíquicas, por isso é muito importante usar o bom senso e aproveitar a consulta médica de revisão que ocorre algumas semanas após o parto, para conversar com o médico sobre sua intenção de retornar ao trabalho e ouvir sua orientação profissional. A OMS – Organização Mundial de Saúde recomenda que os bebês recebam o leite materno como alimento exclusivo até os seis meses, portanto mesmo que a mãe decida por retornar ao trabalho antes, é importante orientar-se e também organizar-se para a continuidade da retirada do leite materno para garantir assim o desenvolvimento saudável do bebê.

Equipe Hipoglós –Na Itália, recentemente, uma ministra provocou polêmica ao voltar a trabalhar apenas uma semana após o parto. Em resposta às controvérsias, ela respondeu que cuidar de uma pessoa (o filho dela) era sem dúvida uma tarefa fundamental, mas que cuidar de milhares de pessoas (o trabalho dela como ministra) era ainda mais importante. Com este exemplo e tantos outros de mulheres que voltam às atividades em seguida do parto, é possível dizer que as mulheres estão se masculinizando, ao forçar comportamentos masculinos, ainda que acima de se sua fragilidade física?

Patrícia Santanna – Não acredito que as mulheres estejam se masculinizando ou forçando comportamentos masculinos passando por cima de suas fragilidades físicas ou emocionais para retornar ao trabalho mais rapidamente, o que algumas mulheres relatam é que com a maternidade também se sentiram mais fortalecidas e tiveram suas competências profissionais potencializadas o que acaba contribuindo para um melhor desempenho profissional.

Equipe Hipoglós – Muitas mães têm dúvidas sobre com quem deixar os filhos para voltarem a trabalhar. O que é melhor para a formação da criança: uma babá ou uma creche?

Patrícia Santanna – A gravidez em média dura nove meses não só para o desenvolvimento do bebê, mas também para a mãe organizar-se física e psiquicamente para esse novo papel, por isso é importante aproveitar a gravidez também para se organizar quanto ao retorno à atividade profissional para que esse retorno possa ser o mais tranqüilo possível, não deixando decisões tão importantes para a última hora. Não existe regra definida para a melhor opção com quem deixar seu bebê, o importante é que seja uma decisão analisada com antecedência, bem avaliada não só pela mãe, mas também pelo pai porque a mulher tem a tendência de se sobrecarregar tomando para si todas as decisões quanto aos cuidados com o bebê e se certificar que o bebê fique em boas mãos seja em uma instituição especializada ou com alguém que você teve tempo para conhecer e treinar para possíveis intercorrências ou mesmo com familiares em quem você confia plenamente.